Download Para Compreender a Politica Brasileira - Olavo de Carvalho PDF

TitlePara Compreender a Politica Brasileira - Olavo de Carvalho
Tags Ideologies Nazism Communism Anti Communism
File Size1.5 MB
Total Pages62
Document Text Contents
Page 1

Política e
Cultura
no Brasil
História e Perspectivas

Para compreender
a política brasileira
Subsídios para o curso

Page 2

Seminário de Filosofia de Olavo de Carvalho 

 

Olavo de Carvalho 

 

 

 

 

 

Para compreender a política brasileira 
Subsídios para o curso “Política e Cultura no Brasil: História e Perspectivas”.  

 

 

E­book 

Para circulação interna do Seminário de Filosofia

Page 31

Seminário de Filosofia de Olavo de Carvalho 

A mentalidade revolucionária 

 

Diário do Comércio​, 16 de agosto de 2007 

 
 
 
Desde que se espalhou por aí que estou escrevendo um livro chamado “A Mente                           

Revolucionária”, tenho recebido muitos pedidos de uma explicação prévia quanto ao                     

fenômeno designado nesse título. 

A mente revolucionária é um fenômeno histórico perfeitamente identificável e contínuo,                     

cujos desenvolvimentos ao longo de cinco séculos podem ser rastreados numa infinidade                       

de documentos. Esse é o assunto da investigação que me ocupa desde há alguns anos.                             

“Livro” não é talvez a expressão certa, porque tenho apresentado alguns resultados desse                         

estudo em aulas, conferências e artigos e já nem sei se algum dia terei forças para reduzir                                 

esse material enorme a um formato impresso identificável. “A mente revolucionária” é o                         

nome do assunto e não necessariamente de um livro, ou dois, ou três. Nuncame preocupei                               

muito com a formatação editorial daquilo que tenho a dizer. Investigo os assuntos queme                             

interessam e, quando chego a algumas conclusões queme parecem razoáveis, transmito­as                       

oralmente ou por escrito conforme as oportunidades se apresentam. Transformar isso em                       

“livros” é uma chatice que, se eu pudesse, deixaria por conta de um assistente. Como não                               

tenho nenhum assistente, vou adiando esse trabalho enquanto posso. 

A mente revolucionária não é um fenômeno essencialmente político, mas espiritual e                       

psicológico, se bem que seu campo de expressão mais visível e seu instrumento                         

fundamental seja a ação política. 

Para facilitar as coisas, uso as expressões “mente revolucionária” e “mentalidade                     

revolucionária” para distinguir entre o fenômeno histórico concreto, com toda a variedade                       

das suas manifestações, e a característica essencial e permanente que permite apreender a                         

sua unidade ao longo do tempo. 

“Mentalidade revolucionária” é o estado de espírito, permanente ou transitório, no qual                       

um indivíduo ou grupo se crê habilitado a remoldar o conjunto da sociedade – senão a                               

natureza humana em geral – por meio da ação política; e acredita que, como agente ou                               

portador de um futuro melhor, está acima de todo julgamento pela humanidade presente                         

ou passada, só tendo satisfações a prestar ao “tribunal da História”. Mas o tribunal da                             

História é, por definição, a própria sociedade futura que esse indivíduo ou grupo diz                           

representar no presente; e, como essa sociedade não pode testemunhar ou julgar senão                         

através desse seu mesmo representante, é claro que este se torna assim não apenas o único                               

juiz soberano de seus próprios atos, mas o juiz de toda a humanidade, passada, presente ou

Page 32

Seminário de Filosofia de Olavo de Carvalho 

futura. Habilitado a acusar e condenar todas as leis, instituições, crenças, valores,                       

costumes, ações e obras de todas as épocas sem poder ser por sua vez julgado por nenhuma                                 

delas, ele está tão acima da humanidade histórica que não é inexato chamá­lo de                           

Super­Homem. 

Autoglorificação do Super­Homem, a mentalidade revolucionária é totalitária e genocida                   

em si, independentemente dos conteúdos ideológicos de que se preencha em diferentes                       

circunstâncias e ocasiões. 

Recusando­se a prestar satisfações senão a um futuro hipotético de sua própria invenção e                           

firmemente disposto a destruir pela astúcia ou pela força todo obstáculo que se oponha à                             

remoldagem do mundo à sua própria imagem e semelhança, o revolucionário é o inimigo                           

máximo da espécie humana, perto do qual os tiranos e conquistadores da antigüidade                         

impressionam pela modéstia das suas pretensões e por uma notável circunspecção no                       

emprego dos meios. 

O advento do revolucionário ao primeiro plano do cenário histórico – fenômeno que                         

começa a perfilar­se por volta do século XV e se manifesta com toda a clareza no fim do                                   

século XVIII – inaugura a era do totalitarismo, das guerras mundiais e do genocídio                           

permanente. Ao longo de dois séculos, os movimentos revolucionários, as guerras                     

empreendidas por eles e o morticínio de populações civis necessário à consolidação do seu                           

poder mataram muito mais gente do que a totalidade dos conflitos bélicos, epidemias                         

terremotos e catástrofes naturais de qualquer espécie desde o início da história do mundo. 

O movimento revolucionário é o flagelo maior que já se abateu sobre a espécie humana                             

desde o seu advento sobre a Terra. 

A expansão da violência genocida e a imposição de restrições cada vez mais sufocantes à                             

liberdade humana acompanhampari passu a disseminação da mentalidade revolucionária                 

entre faixas cada vez mais amplas da população, pela qual massas inteiras se imbuem do                             

papel de juízes vingadores nomeados pelo tribunal do futuro e concedem a si próprios o                             

direito à prática de crimes imensuravelmente maiores do que todos aqueles que a                         

promessa revolucionária alega extirpar. 

Mesmo se não levarmos em conta as matanças deliberadas e considerarmos apenas a                         

performance revolucionária desde o ponto de vista econômico, nenhuma outra causa social                       

ou natural criou jamais tanta miséria e provocou tantas mortes por desnutrição quanto os                           

regimes revolucionários da Rússia, da China e de vários países africanos. 

Qualquer que venha a ser o futuro da espécie humana e quaisquer que sejam as nossas                               

concepções pessoais a respeito, a mentalidade revolucionária tem de ser extirpada                     

radicalmente do repertório das possibilidades sociais e culturais admissíveis antes que, de                       

tanto forçar o nascimento de um mundo supostamente melhor, ela venha a fazer dele um

Page 61

Seminário de Filosofia de Olavo de Carvalho 

Os donos do mundo 

 

Diário do Comércio​, 21 de fevereiro de 2011 

 

As forças históricas que hoje disputam o poder nomundo articulam­se em três projetos de                             

dominação global: o “russo­chinês” (ou “eurasiano”), o “ocidental” (às vezes chamado                     

erroneamente “anglo­americano”) e o “islâmico”. 

Cada um tem uma história bem documentada, mostrando suas origens remotas, as                       

transformações que sofreu ao longo do tempo e o estado atual da sua implementação. 

Os agentes que os personificam são respectivamente: 

1. A elite governante da Rússia e da China, especialmente os serviços secretos desses dois                             

países. 

2. A elite financeira ocidental, tal como representada especialmente no Clube Bilderberg,                       

no Council of Foreign Relations e na Comissão Trilateral. 

3. A Fraternidade Muçulmana, as lideranças religiosas de vários países islâmicos e alguns                         

governos de países muçulmanos. 

Desses três agentes, só o primeiro pode ser concebido em termos estritamente                       

geopolíticos, já que seus planos e ações correspondem a interesses nacionais e regionais                         

bem definidos. O segundo, que está mais avançado na consecução de seus planos de                           

governo mundial, coloca­se explicitamente acima de quaisquer interesses nacionais,                 

inclusive os dos países onde se originou e que lhe servem de base de operações. No                               

terceiro, eventuais conflitos de interesses entre os governos nacionais e o objetivomaior do                           

Califado Universal acabam sempre resolvidos em favor deste último, que que hoje é o                           

grande fator de unificação ideológica do mundo islâmico. 

As concepções de poder global que esses três agentes se esforçam para realizar são muito                             

diferentes entre si porque brotam de inspirações heterogêneas e às vezes incompatíveis. 

Embora em princípio as relações entre eles sejam de competição e disputa, às vezes até                             

militar, existem imensas zonas de fusão e colaboração, ainda que móveis e cambiantes.                         

Este fenômeno desorienta os observadores, produzindo toda sorte de interpretações                   

deslocadas e fantasiosas, algumas sob a forma de “teorias da conspiração”, outras como                         

contestações soi disant“realistas” e “científicas” dessas teorias. 

Boa parte da nebulosidade do quadro mundial é produzida por um fator mais ou menos                             

constante: cada umdos três agentes tende a interpretar nos seus próprios termos os planos

Page 62

Seminário de Filosofia de Olavo de Carvalho 

e ações dos outros dois, em parte para fins de propaganda, em parte por genuína                             

incompreensão. 

As análises estratégicas de parte a parte refletem, cada uma, o viés ideológico que lhe é                               

próprio. Ainda que tentando levar em conta a totalidade dos fatores disponíveis, o                         

esquema russo­chinês privilegia o ponto de vista geopolítico e militar, o ocidental o ponto                           

de vista econômico, o islâmico a disputa de religiões. 

Essa diferença reflete, por sua vez, a composição sociológica das classes dominantes nas                         

áreas geográficas respectivas: 

1) Oriunda da Nomenklatura comunista, a classe dominante russo­chinesa compõe­se                   

essencialmente de burocratas, agentes dos serviços de inteligência e oficiais militares. 

2) O predomínio dos financistas e banqueiros internacionais no establishment ocidental é                       

demasiado conhecido para que seja necessário insistir sobre isso. 

3) Nos vários países do complexo islâmico, a autoridade do governante depende                       

substancialmente da aprovação da umma – a comunidade multitudinária dos intérpretes                     

categorizados da religião tradicional. Embora haja ali uma grande variedade de situações                       

internas, não é exagerado descrever como “teocrática” a estrutura do poder dominante. 

Assim, pela primeira vez na história do mundo, as três modalidades essenciais do poder –                             

político­militar, econômico e religioso – encontram­se personificadas em blocos                 

supranacionais distintos, cada qual com seus planos de dominação mundial e seus modos                         

de ação peculiares. Isso não quer dizer que cada um não atue em todos os fronts, mas                                 

apenas que suas respectivas visões históricas e estratégicas são delimitadas, em última                       

instância, pelamodalidade de poder que representam. Não é exagero dizer que omundo de                             

hoje é objeto de uma disputa entre militares, banqueiros e pregadores. 

Praticamente todas as análises de política internacional hoje disponíveis namídia do Brasil                         

ou de qualquer outro país refletem a subserviência dos “formadores de opinião” a uma das                             

três correntes em disputa, e portanto o desconhecimento sistemático de suas áreas de                         

cumplicidade e ajuda mútua. Esses indivíduos julgam fatos e “tomam posições” com base                         

nos valores abstratos que lhes são caros, sem nem mesmo perguntar se suas palavras, na                             

somatória geral dos fatores em jogo no mundo, não acabarão concorrendo para a glória de                             

tudo quanto odeiam. Os estrategistas dos três grandes projetos mundiais estão bem                       

alertados disso, e incluem os comentaristas políticos – jornalísticos ou acadêmicos – entre                         

os mais preciosos idiotas úteis a seu serviço.

Similer Documents