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Temos aqui três expressões que talvez necessitem alguma explicação:



a) A Nuvem do Não Saber: figura a nossa incapacidade de conhecer Deus como Deus é

em Si Mesmo — intenção que ultrapassa nossa habilidade de pensar sobre Ele ou ainda

mais imaginá-Lo. Deus é muito, muito maior do que nossa fraca compreensão dEle.

Não podemos alcançar Deus diretamente por nosso entendimento, mas podemos amá-

Lo — de fato, podemos amar a Deus diretamente. Assim, endereçamos nossa palavra de

fé e amor a Deus, que é incompreensível para nós, que permanece escondido na Nuvem

do Não Saber. De acordo com nosso mestre, a experiência de Deus — a contemplação

— é um não conhecimento.



b) A Nuvem do Esquecimento: procuramos penetrar na Nuvem do Não Saber deixando

de lado deliberadamente toda imaginação, pensamento ou discurso interior. Muitos

fecham os olhos, outros os fixam sobre certo ponto (uma cruz ou ícone, por exemplo).

Escolhemos um lugar sossegado para evitar distrações e suavemente (com certeza

nenhuma violência contra si mesmo é recomendada!), conscientemente repetimos nossa

palavra, retornando a ela quando distraídos. Assim colocamos de lado os pensamentos

— sejam eles piedosos, sejam simples distrações. Colocamo-los de lado — ou,como diz

o autor, colocamo-los debaixo da Nuvem do Esquecimento — e deixamos nossa palavra

ser como uma flecha que atravessa a Nuvem do Não Saber,onde Deus graciosamente

aceita nosso amor e fé.



c) O Ser Desnudo de Deus: isto significa apenas Deus como Deus é em Si Mesmo.

Aceitamos tudo que o Deus nos revelou, especialmente a revelação muito especial de

Deus que é Jesus, nascido de Maria, Jesus que morreu e ressuscitou. Aceitamos a

verdade, a profundidade e a vida da Santíssima Trindade, mas nesta oração escolhemos

não pensar ou meditar sobre tudo isto mas, de preferência, descansar em Sua presença,

apenas permanecer consciente e amorosamente nessa presença. Escolhemos

simplesmente deixar que Deus nos ame e, em resposta, fazer atos de amor.



A dinâmica do ensinamento da ―Nuvem do Não Saber‖ é aquela dinâmica de uma

amizade que se aprofunda e fica mais íntima, que vai se purificando. Chega o tempo, na

amizade, em que apenas ficarmos quietos juntos é perfeitamente bom. Palavras são

instrumentos de amor e amizade, mas têm limites — sua superficialidade e inadequação

podem bloquear uma amizade mais profunda. Há um tempo para ser silenciosos. Esta

forma de oração é um caminho para uma oração mais silenciosa — caso seja para isto,

de fato, que o Senhor nos chama.



Mas nossa fé e amor ainda necessitam de algum alimento. É de esperar que tenham

continuidade nossa vida litúrgica, nossa oração com os outros, nossa leitura das

Sagradas Escrituras, nossas conversas sobre a fé. Abraçar a oração de repetição de uma

palavra de amor não significa jogar fora todas as outras formas de rezar, mas significa

ajustar nossa vida para termos tempo de ―ficar em quietude e saber que Deus é Deus‖

(Sl 46,11).



Algumas pessoas descobrem esta forma de oração com alívio e gratidão. Certamente

este foi meu caso. Talvez leve algum tempo para integrar esta oração em nossa vida

cotidiana. Por isso a leitura e releitura da ―Nuvem do Não Saber‖ seria provavelmente

muito útil. Uma leitura guiada da ―Nuvem‖, lindamente escrita, é apresentada no livro

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―A Busca Amorosa por Deus‖, do Pe. William Meninger, OCSO (4). Outros autores na

tradição da ―Nuvem‖ são o Pe. Thomas Keating (5) e o Pe. Basil Pennington (6). Os três

são monges trapistas norte-americanos e vários de seus trabalhos estão disponíveis em

português. Eles chamam de ―Oração Centrante‖ a forma de oração ensinada na

―Nuvem‖.



Acho útil lembrar que repetir interiormente uma palavra não é, em si mesmo, um ato

religioso. Mas quando a fé, a confiança e o amor motivam a repetição, esta prática se

transforma em ato religioso. Afinal, andar pode ser uma ação moralmente neutra — em

si mesmo nem boa, nem má. Animais podem andar. Mas podemos andar pela rua para

roubar um banco, ou andar numa procissão religiosa, ou para levar a Eucaristia a uma

pessoa doente. A motivação transforma o andar. De maneira similar, nossa motivação

pode transformar a simples repetição interior da nossa palavra de amor em ato de fé e

amor, em ato religioso, um encontro com Deus.



Algumas pessoas acham muito agradáveis o silêncio e a quietude, enquanto outras

sentem-se ameaçadas, e outras dizem que adormecem. Podemos evitar o sono,

escolhendo o tempo e o lugar para nossa oração, soltando sapatos apertados, lavando

rosto e mãos antes da oração, lembrando a postura. Cair no sono de vez em quando

durante a oração não é das piores coisas que podem nos acontecer! A sensação de nos

sentirmos ameaçados pelo silêncio interior pode ser muito desconfortável, mas em geral

decorre da falta de hábito. Logo que nos acostumamos com o silêncio, a ameaça parece

desaparecer por completo.



Às vezes paramos de repetir nossa palavra sem nos darmos conta disso. Tal fato é muito

normal e não deve nos preocupar. Quando notamos que aconteceu, podemos retornar

suavemente a nossa palavra.



Alguém me disse, certa ocasião: ―A experiência foi maravilhosa, repousante e até alegre

— mas será que foi realmente oração‖? Minha resposta foi, e é: sim, sim. Mas

precisamos ainda discernir com responsabilidade se esta forma de oração é a melhor

para nós. A repetição da palavra é uma maneira de permanecer em quietude, algo que

muitos acham difícil. A tensão nervosa provocada por nosso estilo ativo de vida pode

tornar bastante difícil sentar em quietude. Muitas pessoas acham a repetição da palavra

amorosa uma grande ajuda.



Lembremos bem claramente que a meta ou finalidade de nossa Oração Centrante não é

a eliminação de toda atividade intelectual. Embora tal atividade seja deliberadamente

reduzida ao mínimo, nunca ficamos completamente passivos. Quem reza de acordo com

os ensinamentos da ―Nuvem‖ não está à procura do nada, mas sim de Deus. Vamos nos

referir aqui a São João da Cruz quando ele ensina que tudo que não é Deus é como o

nada, e realmente não é nada sem Deus.



―A Nuvem do Não Saber‖ é uma das grandes riquezas da tradição mística inglesa. O

estilo do livro é tão inglês — muito pouca auto-referência extravagante. Mas o

ensinamento é cauteloso e claro. De onde vem tudo isto?



A tradição do Pseudo Dionísio (7) é bem evidente. Estamos diante de ensinamentos que

evidenciam a influência da Alexandria cristã do terceiro ao sexto século. Dionísio foi

um monge sírio. Seus escritos chegaram à Europa Ocidental na Idade Média. Até Santo

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(que foi um discípulo de São Paulo), nos tempos atuais ele é usualmente chamado

"Pseudo Dionísio".


Contemplação
O sentido da palavra contemplação não é consensual entre os autores cristãos, que lhe

têm associado, ao longo da história, diferentes significados. A seleção de definições

apresentada neste texto procura, na medida do possível, refletir a opinião de uma

importante parcela desses autores e o magistério da Igreja.



Para Dom Thomas Keating, OCSO (1) a contemplação, "um desenvolvimento normal

da graça do batismo" é "a abertura da mente e do coração – de todo o nosso ser – a

Deus, o Mistério Último, para além de palavras, pensamentos e emoções". Em outro

texto, o mesmo autor nos diz que a contemplação é "uma experiência da presença do

Deus Trinitário como o substrato em que nosso ser se enraíza, a fonte de onde jorra

continuamente a vida". Presença anterior à nossa experiência dela e que, segundo Santo

Agostinho, é mais íntima de nós que nós mesmos.

O Pe. William Johnston, SJ (2) distingue duas formas de contemplação reconhecidas

pela tradição da Igreja: a adquirida e a infusa. A primeira forma resulta do esforço

humano auxiliado pela graça. É um desenvolvimento natural de uma vida dedicada à

oração e a outras práticas contemplativas. Por sua vez, a contemplação infusa é puro

dom. O esforço humano é de pequena importância para alcançá-la. Os que a conhecem

falam do despertar (muitas vezes inesperado) da consciência viva de uma presença

misteriosa e amorosa, abraçando a eles mesmos e a todo o universo.



Por vezes simplesmente referida como um "descanso" em Deus, um "olhar amoroso"

para ele, a contemplação pressupõe um estado interior de silêncio, de abandono e

apaziguamento. No livro "Espiritualidade, Contemplação e Paz" (3), o Pe. Louis

Merton, OCSO (Thomas Merton)menciona cinco "elementos essenciais da

contemplação mística":

1. É uma intuição que, em seu nível inferior, transcende os sentidos. No nível
superior, transcende o próprio intelecto.

2. Daí ser ela caracterizada por uma espécie de luz-nas-trevas, de conhecimento no
"desconhecimento".

3. Nesse contato com Deus, na obscuridade, deve haver certa afinidade amorosa de
ambas as partes. Do lado do homem, deve haver desapego das coisas sensíveis,

(...) um esforço generoso de renúncia ascética de si mesmo.

4. A contemplação é obra do amor, e o contemplativo prova que ama deixando
todas as coisas, mesmo as espirituais, para ir a Deus no nada, no desprendimento

e na "noite". Mas o fator decisivo na contemplação é a livre e imprevisível ação

de Deus.

5. Esse conhecimento de Deus no "desconhecimento" não é intelectual, nem
mesmo, no sentido estrito, afetivo. (...) É um trabalho de união interior e de

identificação na caridade divina.

Vida contemplativa é a vida orientada para a busca de Deus, polarizada pela

consciência permanente de sua presença, pelo assentimento a sua ação em nós e pelo

continuado abandono a sua vontade. É a vida caracterizada pelo deixar-se transformar,

deixar-se construir por Deus.

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